Início » Sermões » Patrões e empregados

Patrões e empregados

Por Leonardo Pereira


Referência: Efésios 6.5-9

INTRODUÇÃO

1. A Escravidão no Império Romano
• A escravidão parece ter sido universal no mundo antigo. Uma alta porcentagem da população do Império Romano consistia em escravos. Havia cerca de 60 milhões de escravos. Eles constituíam a força de trabalho e incluíam não somente os empregados domésticos e os trabalhadores manuais, mas também pessoas cultas, tais como médicos, professores e administradores.
• Os escravos não tinham direitos. Eram meras propriedades de seus senhores, existindo apenas para o conforto, conveniência e prazer dos seus donos.
• Os servos podiam ser herdados ou comprados. Os prisioneiros de guerra geralmente tornavam-se escravos.
a) A impessoalidade dos escravos – Legalmente o escravo não era uma pessoa, mas uma coisa. Aristóteles dizia que não podia haver nenhuma amizade entre um senhor e um escravo, visto que um escravo é apenas uma ferramenta viva, assim como uma ferramenta é um escravo inanimado. Um escravo era uma espécie de propriedade que tem alma. Os escravos velhos e doentes eram abandonados sem alimento e entrgues à morte. Eram como uma ferramenta imprestável.
b) A desumanização dos escravos – A legislação romana dizia que os escravos eram apenas bens móveis sem direitos, aos quais o seu senhor podia tratar virtualmente cmo quisesse. O Patria Famílias dava direito ao senhor de castigar, confinar e matar os seus escravos. Os escravos eram torturados, mutilados, seus dentes eram arrancados, seus olhos vazados, eram jogados às feras ou crucificados.

2. Como os apóstolos trataram a questão da escravidão
• Os apóstolos não se consideravam reformadores sociais. Eram, antes de tudo, arautos das boas novas da salvação em Cristo. Todavia, não fecharam os olhos à escravidão. Na verdade, anunciavam os verdadeiros princípios (como o da absoluta igualdade espiritual entre senhores e escravos), que acabou destruíndo essa terrível mancha da civilização.
• O Cristianismo provocou não uma revolução política, social e econômica, mas uma revolução moral e espiritual. Se o cristianismo tivesse se envolvido com causas políticas, antes que espirituais, ele teria sufocado com sangue a religião nascente. O evangelho realizou obra mais nobre. O procedimento dos apóstolos para com esse mal social foi semelhante ao de um lenhador que tira a casca da árvore e a deixa morrer.
• Os textos de Efésios 6:5-9; Colossenses 3:22-4:1; Filemon 16; Tiago 5:1-6 minam as bases da escravidão.

3. O triunfo do Cristianismo sobre a escravidão
• Foi a religião cristã que apagou essa mancha da civilização. Os reformadores trataram da questão do mistério do pobre e do ministério do rico. A pregação dos avivalistas Wesley e Whitefield resultaram na abolição da escravatura na Inglaterra. Wilberforce na Inglaterra acaba com a escravidão. A guerra civil nos Estados Unidos acaba com a escravidão com a vitória dos estados do norte sobre os estados do sul. No Brasil, a escravidão é vencida em 1888. Em nenhuma país cristão, a escravidão pode prevalecer.
• Em Efésios 6:5-9 Paulo mostra três aspectos de um relacionamento transformado que liquidou com a escravidão: 1) Igualdade – v. 9 – Diante de Deus, os senhores e os escravos eram iguais. 2) Justiça – v. 9 – “De igual modo procedei com eles” (Colossenses 3:22-4:1). 3) Fraternidade – Fm 16 – “Não já como escravo; antes, muito acima de escravo, como irmão caríssimo”. Assim, a escravidão foi abolida a partir de dentro.

I. O DEVER DOS EMPREGADOS EM RELAÇÃO AOS SEUS PATRÕES – V. 5-8

A. Como se deve exercer a obediência – v. 5-7

1. Os empregados devem ser respeitosos – v. 5
• “Obedecer com tremor e temor” não significa um terror servil; mas antes o espírito de solicitude de quem possui o verdadeiro sentido de responsabilidade. É o cuidado de não deixar nenhum dever sem ser cumprido. Paulo não aconselha os escravos se rebelarem, mas serem cristãos onde estão. O cristianismo não é um escape das circunstâncias, mas sua transformação.

2. Os empregados devem ser íntegros – v. 5
• “Singeleza de coração” refere-se a fazer o trabalho com realismo, sem duplicidade e sem fingimento. É agir com integridade e sinceridade, sem hipocrisia ou segundas intenções. Fazer um bom trabalho é a vontade de Deus. Não existe dicotomia entre o secular e o sagrado. Quando você é um bom funcionário, isso redunda em glória ao nome de Cristo. Esta é uma liturgia que agrada a Deus. O empregado precisa ser honesto. Honrar a sua empresa.

3. Os empregados devem ser coerentes espiritualmente – v. 5
• “Como ao Senhor” significa que o empregado deve encarar a obediência ao seu senhor terreno como uma espécie de serviço prestado ao próprio Senhor Jesus. Esta é a essência da submissão da esposa ao marido, dos filhos aos pais e dos empregados aos patrões. Eles devem obedecer porque são servos de Cristo. Eles devem ser leais aos seus patrões por causa do compromisso que têm com o senhorio de Cristo.
• Um empregado crente, mas infiel, que faz corpo mole, que trai o seu patrão, a sua empresa, que não dá o melhor de si, está traindo o próprio Senhor Jesus. A convicção do trabalhador crente é que cada trabalho que realiza deve ser suficientemente bom como para apresentá-lo ao Senhor. É uma liturgia ao Senhor. O crente deve trafegar da empresa para o templo com a mesma devoção.
• O problema do trabalho e da relação patrão-empregado mais do que um problema econômico, é um problema espiritual.

4. Aspecto Negativo: Os empregados não precisam ser vigiados – Eles têm respeito próprio – v. 6
• Paulo combate aqui o pecado da preguiça. Eles não precisam ser vigiados para fazer o seu melhor. O propósito deles não é bajular o patrão. Eles têm dignidade e respeito próprio. O empregado honesto não trabalha apenas quando o patrão está olhando. Eles sabem que Jesus está olhando e é a Jesus que querem agradar. Eles não se satisfazem com trabalho mal feito.

5. Aspecto Positivo: Os empregados servem aos seus patrões de boa vontade – Como se estivessem servindo a Cristo – v. 7
• Paulo combate aqui o pecado da desonestidade. O empregado crente considera-se escravo de Cristo e por isso tudo o que faz, o faz com toda a sua alma e alegremente. Seu coração e alma estão no seu serviço. Ele sabe que o Senhor é também o seu juiz.

B. Incentivo à obediência – v. 8

• A expressão “certos de que” tem força causal e estimula a realização do desempenho fiel do escravo. Todo o bem que você fizer voltará a você (Ef 6:8). Deus é o galardoador. Também todo o mal que você fizer, voltará a você (Cl 3:25). O que você semear isso você vai colher (Gl 6:7). Nós devemos servir em última instância a Cristo e não aos homens. Nós iremos receber a nossa recompensa de Cristo e não dos homens.

II. O DEVER DOS PATRÕES EM RELAÇÃO AOS SEUS EMPREGADOS – V. 9

• As obrigações não estão apenas do lados dos escravos e dos empregados. Os senhores e patrões também têm deveres. Isso era abolutamente revolucionário nos dias de Paulo. O verso 9 contém três coisas: um princípio, uma proibição e um estímulo.

1. Um Princípio- O princípio da igualdade diante de Deus – v. 9a
• “Vós, senhores, de igual modo, procedei com eles”. Se você patrão espera receber respeito, demonstre respeito; se espera receber serviço, preste serviço. É uma aplicação da regra áurea: “Assim como quereis que os homens vos façam, fazei vós também a eles” (Lc 6:31). Paulo não admite nenhuma superioridade privilegiada nos senhores, como se eles mesmos pudessem deixar de mostrar a própria cortesia que desejam receber.
• O patrão deve entender que apesar de ser patrão, ele não deixa de ser servo de Deus. Deus é o seu juiz. Ele vai prestar conta. Se o patrão espera o melhor do seu empregado, deve fazer também o melhor para ele. O patrão não pode explorar os seus empregados.
• O problema do trabalho ficaria resolvido se tanto empregado como patrão observasse a Palavra de Deus.

2. Uma Proibição – Não façam ameaças – v. 9b
• No tempo de Paulo os escravos viviam debaixo de um clima de medo a ameaças. O patrão crente precisa abandonar essa prática de ameaçar os seus empregados. Os empregados devem ser tratados com bondade, respeito e nunca com violência ou humilhação.
• Eric Fromm fala de dois tipos de autoridade: imposta e adquirida. Você apanha mais moscas com uma gota de mel do que com um barril de fel. Relacionamento respeitoso é um básico elemento motivacional. Um empregado motivado produz mais.
• A autoridade dos maridos, pais e patrões é uma oportunidade para servir e cuidar e não para oprimir. Humilhar, oprimir, ameaçar um empregado por ele ser mais fraco é um grave pecado aos olhos de Deus.
• Um patrão pode esmagar o empregado pagando-lhe um salário de fome ou retendo fraudulentamente o seu salário – Tiago 5:1-6.

3. Um Incentivo – Tanto patrões como empregados têm o mesmo Senhor no céu – 9c
• Os patrões crentes são responsáveis diante de Deus pelo modo como tratam os seus empregados. Eles não são superiores nem melhores aos olhos de Deus. Tanto eles como seus empregados ajoelham-se diante do mesmo Senhor que não faz acepção de pessoas. Deus não demonstra parcialidade ou favoritismo.
• Muitos homens que governaram foram servos antes de serem líderes: José, Moisés, Josué, Davi, Neemias. Antes de você se tornar um líder precisa aprender a ser servo. Um provérbio africano diz: “O chefe é o servo de todos”. Jesus diz que aquele que quiser ser grande entre vós, seja servo de todos (Mt 20:27).
• O patrão que se esquece que tem um Senhor no céu fracassa em ser um bom patrão sobre a terra.

Rev. Hernandes Dias Lopes

* As opiniões expressas nos textos publicados são de exclusiva responsabilidade dos respectivos autores
e não refletem, necessariamente, a opinião do Gospel Prime.

Prime Cursos